Como responder o questionário de LGPD que o cliente enviou

25 de agosto de 2026LGPD de Todos9 min de leitura

Responda só o que é verdade, com data e responsável em cada item, e diga o que ainda não existe junto com o prazo para existir. Na prática, o questionário costuma servir para avaliar e classificar risco, além de coletar evidência. Responder "não" a seis itens com um plano datado tende a gerar menos ruído do que responder "sim" a tudo e travar na primeira pergunta de acompanhamento.

Chegou uma planilha por e-mail, com trinta linhas, prazo de uma semana e uma frase no corpo do e-mail dizendo que é requisito para seguir com o contrato. Se você nunca respondeu um desses, a reação natural é marcar "sim" onde parece que dá e anexar a política de privacidade do site. É exatamente o que não fazer, e este texto explica por quê.

Homem sentado à mesa de um escritório pequeno, escrevendo com caneta sobre um formulário impresso comprido que se dobra sobre a mesa, com um notebook aberto ao lado.
A folha assusta pelo tamanho, mas as perguntas repetem meia dúzia de fatos sobre a sua empresa. Quem já os tem registrados responde em uma tarde.

1. Por que o cliente está perguntando

Ele não está sendo chato: está se protegendo de uma responsabilidade que a lei coloca no colo dele. Quando a sua empresa trata dados pessoais em nome de um cliente, você é operador e ele é controlador. E o Art. 42, § 1º da LGPD diz que o operador responde solidariamente pelos danos quando descumpre a legislação ou não segue as instruções lícitas do controlador. Se quem recebe o questionário é um escritório contábil, o texto sobre LGPD para escritório de contabilidade mostra em quais operações ele é operador e em quais não é.

Na prática: se houver dano decorrente de tratamento irregular e o operador tiver descumprido a legislação ou as instruções lícitas do controlador, pode haver responsabilidade solidária. Ela é excepcional, e não automática. Por isso o questionário existe, e por isso ele aparece cada vez mais cedo na negociação, muitas vezes antes da proposta comercial.

2. O que cada pergunta está checando de verdade

Quase nenhuma pergunta quer saber se o documento existe. Elas querem saber se ele é vivo: quem mantém, quando foi revisto pela última vez e o que acontece quando alguma coisa muda. Um "sim" acompanhado de data e de um nome vale mais do que três anexos sem nenhum dos dois.

Repare que a pergunta sobre incidentes é a única em que o cliente tem um relógio correndo junto: se ele for comunicado tarde, o problema dele com a ANPD aumenta. Se você só puder caprichar em uma resposta, capriche nessa.

3. Como escrever cada resposta

Use sempre a mesma estrutura: situação, evidência, data e responsável. Quatro elementos, duas ou três linhas. Isso transforma uma planilha de "sim/não" em algo que a pessoa do outro lado consegue aprovar sem voltar a te perguntar nada, e é a diferença entre uma rodada e três.

Compare as duas formas de responder à mesma pergunta:

A terceira linha é a mais importante deste texto. "Não" com plano e data é uma resposta profissional. "Sim" sem lastro é uma dívida.

4. O que anexar, e o que não anexar

Anexe o que comprova o item perguntado, e só ele. Mandar documento demais não demonstra maturidade: demonstra que você não sabe qual documento responde o quê. E cada arquivo enviado passa a existir fora da sua empresa, com informação que talvez não devesse sair.

Sobre a última linha: mandar a lista com nomes de funcionários é, ela mesma, um compartilhamento de dados pessoais que ninguém pediu. É comum, e é um erro que fica feio justamente em um documento sobre proteção de dados.

5. Cinco erros que podem travar a avaliação

O que costuma travar uma avaliação raramente é a falta de um documento. É a incoerência entre o que foi respondido e o que a empresa consegue mostrar. Estes cinco são os mais frequentes.

  1. Marcar "sim" em tudo. Um questionário sem nenhum "não" chama atenção, porque quem avalia sabe que empresa nenhuma está 100%. O efeito é o contrário do pretendido: em vez de tranquilizar, convida a checar.
  2. Anexar a política de privacidade como resposta para tudo. Ela responde uma ou duas perguntas. Usada em oito, mostra que as outras seis não foram lidas.
  3. Confundir o que é seu com o que é do fornecedor. "Os dados ficam na nuvem, que é criptografada" descreve o seu fornecedor de hospedagem, não a sua empresa. A pergunta era sobre você.
  4. Declarar prazo de retenção que ninguém cumpre. Dizer "excluímos em 30 dias" e depois ter backup de dois anos é a incoerência mais comum, e a mais fácil de descobrir na pergunta seguinte.
  5. Deixar sem responsável. Item sem um nome ao lado é item que ninguém mantém. Quem avalia lê isso como documento de gaveta.

6. Como estar pronto antes do próximo

Quem responde bem não escreve as respostas na semana do prazo: só copia de onde elas já estavam. O trabalho é montar uma vez a pasta de evidências e mantê-la viva, com data e responsável em cada item. Depois disso, responder um questionário vira uma tarde, e não uma crise.

O mínimo para não sofrer no próximo:

Note que oito itens cobrem quase todo questionário de mercado. Eles não mudam de cliente para cliente: muda a ordem das perguntas.

7. Perguntas frequentes

Posso responder que sim e organizar depois?

É o pior caminho. A resposta ao questionário costuma virar anexo do contrato, e aí ela deixa de ser uma declaração de intenção e passa a ser uma obrigação assumida. Se o cliente pedir a evidência daqui a seis meses e ela não existir, você não tem só um documento faltando: tem um descumprimento contratual.

O cliente pode exigir que a minha empresa tenha um Encarregado?

Pode exigir por contrato, sim, mesmo que a lei não exija de você. A Resolução CD/ANPD nº 2/2022 dispensa o agente de tratamento de pequeno porte de indicar Encarregado, mas essa dispensa vale perante a lei, não perante o seu cliente. Quem dispensa por contrato é ele. O que a resolução mantém obrigatório é o canal de comunicação com o titular, e isso você precisa ter de qualquer forma. O regime completo do pequeno porte está em LGPD para pequena empresa: o que realmente se aplica a você.

Preciso mandar o meu RoPA inteiro para o cliente?

Não, e normalmente não deve. O RoPA inteiro expõe fornecedores, sistemas e prazos de todas as suas operações, inclusive as que não têm nada a ver com aquele cliente. O que se envia é o recorte das atividades que envolvem os dados dele, ou uma declaração de que o registro existe, quando foi revisto e quem responde por ele.

E se eu não tiver quase nada do que estão perguntando?

Responda o que é verdade e diga o que vai fazer, com data. Alguns questionários admitem plano de adequação para itens ainda não implementados; outros tratam determinados controles como requisito de contratação. Por isso, responda a situação real e deixe claro o plano quando houver.

O que acontece se eu declarar o que não tenho?

Além do risco contratual, existe o risco de responsabilidade. Pelo Art. 42, § 1º da LGPD, o operador responde solidariamente pelos danos quando descumpre a legislação ou não segue as instruções lícitas do controlador. Ou seja: se der problema com os dados que o seu cliente confiou a você, a declaração falsa vira prova de que você sabia o que devia fazer.

Quais são as perguntas mais comuns em um questionário de LGPD?

Sete aparecem em quase todos: se a empresa tem registro das operações de tratamento, quem é o Encarregado, se existe política de segurança da informação, como é o processo de resposta a incidentes e em quanto tempo o cliente fica sabendo, se há subcontratação e quem são os suboperadores, onde os dados ficam armazenados e se há transferência internacional, e se a equipe é treinada. Cada uma tem um motivo do lado de quem pergunta: o cliente quer saber se você sabe onde os dados dele estão, para quem ligar quando um titular cobrar e em quanto tempo será avisado se vazar. Responder "sim" sem ter é o erro que custa o contrato.

Compartilhe

Fontes: Lei nº 13.709/2018 (LGPD), Arts. 39, 42 e 52 · Resolução CD/ANPD nº 2/2022, no texto vigente com a alteração da Resolução nº 15/2024

Publicado por LGPD de Todos, projeto da EFAR Consultoria em TI. Veja como produzimos os nossos textos.