Modelo de política de privacidade LGPD: o que ele resolve, e a régua para conferir o seu

17 de setembro de 2026LGPD de Todos13 min de leitura

Um modelo de política de privacidade resolve a forma do documento, que é a ordem das seções, o vocabulário e a garantia de que nenhuma das informações do Art. 9º ficou de fora. O que ele não tem como resolver é o conteúdo, porque conteúdo depende de saber o que a sua empresa faz com os dados, e isso nenhum arquivo baixado sabe. Baixar um modelo não é erro. Publicar sem conferir é.

Este texto não entrega mais um modelo para copiar. Entrega duas coisas que a primeira página dessa busca não tem: o que os geradores gratuitos realmente perguntam antes de gerar o seu documento, conferido um a um, e uma régua de oito perguntas para você passar na política que já tem publicada, seja ela baixada, gerada ou herdada de alguém.

Dona de uma lavanderia de bairro, de lenço amarrado na cabeça e cabelo cacheado, em pé entre as máquinas com o caderno de fichas dos clientes preso no braço, ao lado de um notebook aberto em um documento de texto sobre a máquina.
A política que ela baixou descreve carrinho de compras e conta de usuário. A lavanderia tem o caderno no braço dela, e é dele que o documento precisava falar.

1. O que você recebe quando baixa um modelo

Um modelo é um índice com texto genérico entre os títulos, e os bons admitem isso deixando campos em branco exatamente onde está o trabalho. O modelo gratuito mais bem posicionado dessa busca tem onze seções, e as duas lacunas que ele pede para você preencher são "dado e finalidade" e "como se coleta". Quem escreveu foi honesto: essas duas são suas.

Vale separar o que o modelo entrega de verdade, porque não é pouco. Ele traz a ordem das seções, que alguém já pensou. Traz o vocabulário certo, que evita escrever "seus dados estão seguros conosco" no lugar de dizer o que se faz. E traz a conferência de completude: se a lista de seções cobre as sete informações do Art. 9º, você não vai esquecer uma. Para quem nunca escreveu um documento desses, isso economiza horas.

O que ele não entrega é qualquer frase que dependa da sua operação. E aqui está a parte desconfortável: as frases que dependem da sua operação são as únicas que a lei cobra por nome. O texto sobre o que precisa ter na política de privacidade percorre as sete informações uma a uma e mostra quais delas um modelo bom já traz mastigadas e quais não têm como vir de lugar nenhum.

Repare no que o caput cobra: informação clara, adequada e ostensiva. Nada ali fala em documento, em formato, em quem escreve ou em quem assina. A política de privacidade é o jeito que o mercado encontrou de entregar essas informações em um lugar só, e é um bom jeito. Mas é meio, e não fim. Um documento bonito que informa errado cumpre o formato e descumpre a lei.

2. Os campos que os geradores pedem, e o que isso prova

Abri três geradores gratuitos de política de privacidade em português, daqueles que se anunciam como modelo grátis e saem prontos em um minuto, em 17 de setembro de 2026, e anotei tudo o que eles perguntam antes de gerar o documento. Juntos, eles pedem entre três e seis campos. O primeiro pede o endereço do site, uma categoria de negócio, um e-mail e três caixas para marcar: cookies, ferramenta de medição e anúncios. O segundo pede nome do site, endereço, e-mail, nome da empresa e duas caixas. O terceiro pede CNPJ, nome, site, e-mail e endereço.

Agora a lista do que nenhum dos três pergunta: quais dados a empresa coleta, para que serve cada um, por quanto tempo cada um fica guardado, com qual base legal, com quem é compartilhado e quem é a pessoa de contato para assuntos de proteção de dados. Seis perguntas, nenhuma feita.

Isso não é crítica de qualidade, é aritmética. Um documento não consegue informar aquilo que nunca foi perguntado. Se o gerador não sabe que a sua clínica guarda a ficha do paciente por vinte anos, o texto que sair não vai dizer isso, e a informação que a lei manda dar é justamente essa. O que o gerador entrega é a parte formal bem feita, com identificação, contato e direitos, e um vazio no lugar da finalidade específica do inciso I.

3. O modelo pressupõe um site, e a lei não

Praticamente todo modelo e todo gerador dessa busca começa pedindo o endereço do seu site, e escreve o documento como se a empresa fosse uma página na internet. A LGPD não menciona site em lugar nenhum. Ela fala em tratamento de dados pessoais, que acontece igual na ficha de papel da recepção, no caderno de encomendas e no grupo de WhatsApp do atendimento.

A consequência é dupla e as duas metades atrapalham. Metade do documento descreve coisas que a empresa não tem: cookies, pixel de medição, criação de conta, carrinho abandonado. A outra metade não descreve nada do que ela tem de verdade: a ficha que a recepcionista preenche à mão, a planilha do orçamento, a foto do documento que o cliente mandou por aplicativo de mensagem, o cadastro no sistema de gestão.

Quem sente isso mais forte é quem tem o dado mais delicado. Uma clínica, uma escola, um consultório e uma academia coletam informação de saúde ou de criança em papel, no balcão, e recebem do modelo um documento inteiro sobre navegação na internet. Se o seu caso é esse, os textos sobre dado sensível e sobre dados de crianças e adolescentes mostram o que a política precisa dizer e que nenhum modelo de loja virtual vai trazer.

4. A ordem que evita escrever duas vezes

A política de privacidade é um documento de saída: ela conta para fora o que já está decidido dentro. Quem escreve a política antes de mapear o tratamento escreve duas vezes, porque a primeira versão é um chute que não sobrevive à primeira pergunta de um cliente.

A ordem que funciona tem três passos. Primeiro, listar o que a empresa coleta, onde entra e quem acessa. Segundo, responder para que serve cada dado, por quanto tempo fica e com qual base legal. Esses dois passos são o registro das operações de tratamento, que o Art. 37 cobra e que a Resolução CD/ANPD nº 2/2022 deixa em formato simplificado para o agente de tratamento de pequeno porte. Só o terceiro passo é escrever a política, e aí ela sai quase sozinha, porque cada seção do documento é uma coluna da planilha virada para fora. Quem preferir fazer esse levantamento respondendo perguntas, em vez de encarar uma planilha em branco, encontra o caminho na página da adequação à LGPD gratuita.

Existe uma vantagem prática nessa ordem que ninguém menciona. Com o registro pronto, você não precisa escolher entre modelos: qualquer um serve, porque você já tem o conteúdo e o modelo vira só a fôrma. Sem o registro, a escolha do modelo vira uma decisão importante, e é uma decisão que você não tem informação para tomar. O texto sobre quais documentos a sua empresa precisa mostra onde a política entra nessa fila.

5. A régua: oito perguntas para a política que você já tem

Estas oito perguntas se respondem lendo o documento, sem conhecer a lei de cor, e cada uma cobra uma informação que o Art. 9º manda dar. Leve a sua política aberta na tela. Onde a resposta for não, o problema quase nunca está na redação: está em uma decisão que ainda não foi tomada dentro da empresa.

A oitava é a mais importante e a que quase ninguém faz. Uma política publicada é uma declaração da empresa, e declaração vira prova. Se o documento diz que existe um procedimento de resposta a pedidos em quinze dias e não existe, você criou por escrito uma obrigação que não cumpre, e criou contra si. É o contrário do que a lei pede em prestação de contas, e o texto sobre como comprovar a adequação mostra o que vale ali: demonstrar o que de fato se faz.

As duas primeiras perguntas são as que mais reprovam, e reprovam juntas. Finalidade genérica e prazo ausente são o par que denuncia um documento escrito sem o mapeamento por trás, e o texto sobre por quanto tempo guardar os dados resolve a segunda delas com os prazos que vêm de outras leis.

6. O que fazer com o modelo depois da régua

Passada a régua, um modelo cai em uma de três situações, e a decisão muda em cada uma. Vale saber em qual você está antes de gastar uma tarde reescrevendo o que talvez não precise ser reescrito.

Passou em quase tudo e falha na finalidade e no prazo. É o caso mais comum, e é bom notícia: o documento está de pé e falta conteúdo, não estrutura. Levante as finalidades e os prazos, troque as frases genéricas por frases suas, e o documento fica pronto no mesmo dia. Nada precisa ser jogado fora.

Descreve uma empresa que não é a sua. Seções inteiras sobre coisas que você não faz, e silêncio sobre as que faz. Aqui o modelo serve como índice e não como texto: aproveite a ordem das seções, apague o conteúdo e escreva do zero a partir do registro das operações. Tentar consertar frase por frase costuma dar mais trabalho do que recomeçar, e deixa restos que ninguém vê.

Você não sabe responder à régua. Se a maioria das oito perguntas não tem resposta porque a informação não existe em lugar nenhum da empresa, o problema não é o documento. Voltar para o mapeamento é mais rápido do que insistir na redação, e é o único caminho que não precisa ser refeito depois. Nesse caso, o texto sobre o que a LGPD cobra de uma empresa sem departamento jurídico mostra o tamanho real do trabalho, que costuma ser menor do que o susto.

7. Perguntas frequentes

Existe um modelo de política de privacidade oficial da ANPD?

A ANPD publica guias orientativos e disponibiliza o modelo simplificado de registro das operações de tratamento para o agente de tratamento de pequeno porte. Um modelo de política de privacidade para as empresas copiarem não está entre os materiais que ela publica, e o motivo é o mesmo que atrapalha os modelos de mercado: o conteúdo depende do que cada empresa faz com os dados. O que existe de oficial é a lista de informações do Art. 9º, que é o piso do documento.

Posso usar um gerador gratuito de política de privacidade?

Pode, sabendo o que ele entrega. Os geradores gratuitos em português pedem entre três e seis campos, quase sempre o endereço do site, o nome, um e-mail de contato e caixas para cookies e anúncios. Nenhum deles pergunta quais dados a empresa coleta, para quê, por quanto tempo nem com qual base legal. O texto que sai preenche a parte formal do Art. 9º e deixa em aberto justamente a finalidade específica, que é o inciso I. Serve como rascunho e como índice, e não como documento publicado sem revisão.

Preciso de advogado para escrever a política de privacidade?

A lei não exige. O Art. 9º descreve as informações que precisam chegar ao titular e não diz quem as escreve, nem manda ninguém assinar o documento. O trabalho que ninguém faz por você é anterior à redação: saber quais dados a empresa trata, para quê, por quanto tempo e com quem compartilha. Com isso escrito, a redação é a parte simples. Advogado ajuda muito quando o tratamento é complexo, quando há dado sensível em escala ou quando o documento vai para dentro de um contrato.

Qual é a diferença entre política de privacidade, aviso de privacidade e termos de uso?

Política de privacidade e aviso de privacidade são o mesmo documento com dois nomes, e a LGPD não usa nenhum dos dois: ela fala em informações que o titular tem direito de acessar. Termos de uso são outra coisa, são as regras do serviço, o que se pode e o que não se pode fazer na plataforma, e não têm relação direta com a lei de proteção de dados. Muita confusão nasce de juntar os dois em um arquivo só, porque o que é regra de contrato acaba escondendo o que é informação obrigatória.

De quanto em quanto tempo a política de privacidade precisa ser revisada?

A lei não fixa um prazo, e desconfie de quem diz que fixa. O que ela exige, no Art. 9º, é que a informação disponível esteja correta, e o § 2º obriga a informar o titular quando a finalidade muda. Na prática isso quer dizer que a política é revisada por evento, e não por calendário: entrou sistema novo, mudou fornecedor, começou uma coleta que não existia, mudou o prazo de guarda. Uma conferência anual, de qualquer forma, costuma achar pelo menos uma dessas mudanças que ninguém avisou.

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Fontes: Lei nº 13.709/2018 (LGPD), Arts. 6º, 9º, 18 e 37 · Resolução CD/ANPD nº 2/2022

Publicado por LGPD de Todos, projeto da EFAR Consultoria em TI. Veja como produzimos os nossos textos.